Embora o assunto do BEDA seja “Conte como foi um dia comum da sua rotina”, eu vou reduzir arbitrariamente o tempo (e o espaço) para “um minuto comum da sua rotina”, e talvez não dure nem um minuto a descida da rampa da estação Artur Alvim. Mais especificamente, a rampa que passa por cima dos trilhos da CPTM e vai para o lado do terminal de ônibus (tem outra, menorzinha, que dá direto na rua do outro lado).
Eu saio da estação por ela no início da manhã, quando a imensa maioria das pessas está usando ela para entrar na estação. Considerando a perspectiva de quem está saindo, ela tem duas “vias” (separadas por um longo corrimão de metal), uma menor à direita e a outra maior, à esquerda. Pela lógica, seria de se esperar que as pessoas entrando ocupassem a via da esquerda, mais larga, mas os mais apressados, que são muitos, ocupam a via da direta também, por onde a minoria tenta descer para ir embora da estação.
“Tenta” porque o pessoal que invade a via da direita não costuma perceber, ou se importar, que tenha gente vindo no sentido contrário. Eles se aproveitam de fazerem parte de uma massa gigantesca como uma onda humana intransponível, que deixa espaço para apenas uma fila minguada de pessoas saindo, e não tem a menor pena de invadir até esta fila.
E é claro que as coisas não funcionam como uma máquina: sempre tem uma senhorinha mais vagarosa, alguém que deixa cair alguma coisa, etc, que segura a fila, obrigando quem vem atrás ultrapassar, ou quase morrer tentando fazer isso, porque fora do estreitíssimo espaço da fila de saída, o risco de colisão é constante. Mesmo que alguém entrando tenha consideração e vá um pouco mais para a esquerda, os próximos dez atrás dessa alma caridosa normalmente não vão ter consideração. Precisa ou ficar muito atento ao que tem pela frente, ou fazer exatamente o contrário: baixar a cabeça e esperar que quem vem em sentido contrário perceba que se não desviar, o outro não vai ver isso.
Talvez um minuto seja até exagero, mas quase sempre a intensidade é inversamente proporcional a duração desse momento.

Foto da hoje desativada estação Engº. Artur Alvim da CPTM, mostrando os trilhos, a plataforma e a passarela que sai da estação do metrô com o mesmo nome (sem a parte do "engenheiro") e vai dar no terminal de ônibus.A rampa vista pelo lado de fora.

Às vezes dá a sorte de pegar um intervalo entre uma leva e outra, e para ser justo, as pessoas não invadem o lado menor sem necessidade. Se tem espaço para disparar enlouquecidamente na via mais larga, as pessoas vão por ela. Às vezes dá o azar de alguém vir e dobrar a aposta. Já me aconteceu de ver os reflexos de luzes brilhando atrás de mim, e quando eu fui ver, era um sujeito descendo de bicicleta, abrindo caminho à força, tanto entre quem descia a rampa como ele, quanto entre quem subia a rampa, porque era isso ou ser atropelado.
Tem placas por ali dizendo que não é para usar as rampas de bicicleta, e longe de mim virar um defensor ferrenho das regras1, mas tem horas, como essas, em que elas deveriam valer tanto quanto artigos da constituição.
Nem daria pro sujeito alegar pressa: embora não seja uma constatação científica, mesmo tendo passado por mim e descido a rampa até o final de bicicleta (no fim dela ela dá umas voltas, umas três ou quatro), eu saí da escada rolante na mesma hora em que ele terminou de descer a rampa, quer dizer, ele podia ter levado o mesmo tempo sem precisar usar a bicicleta como uma ameaça à integridade alheia.
Não que eu queira parecer santo nesta história: eu também já desci a rampa tão desequilibrado emocionalmente que eu simplesmente travei o cotovelo esquerdo pra fora e desci à toda, rezando para acertar alguém e graças a Deus ele não atendeu as minhas preces. E acho que os doidos mais doidos devem estar num dia ruim para subirem ou descerem aquela rampa como doidos, quer dizer, provavelmente a maior parte das potenciais confusões2 são o resultado de uma pessoa num dia ruim.
Claro, o problema é que mesmo apenas um ou dois se revezando no seu dia de fúria, vai ter dia de fúria o tempo todo, com o tanto de gente que tem nessa zona leste de SP.


A imagem é do site Estações Ferroviárias do Brasil

1 Parafraseando a Bíblia, as regras foram feitas para o ser humano, e não o ser humano para as regras.

2 Nunca aconteceu nada demais no fim das contas, só o que se vê é o perigo rondando a rampa, sem nunca atacar (pelo menos que eu saiba(.