O som dentro de um avião é horrível. Não é como o barulho de motor de um carro ou de um ônibus, tranquilizador e relaxante. É um som onipresente, totalizador, parece a casa de máquinas de um equipamento barulhento, grande, pesado e mal ajustado.

De onde eu moro dá pra ouvir a torcida no Itaquerão. Agora já estou acostumado, a ponto de até conseguir abstrair, mas da primeira vez, aquela massa múltipla de vozes me assustou, desde então eu passei a imaginar as trombetas do Apocalipse daquele jeito, mas agora o som de trombetas do Apocalipse, pra mim, é uma turbina de avião.

O mais irritante de um ônibus é ter que ouvir os outros tossindo, fungando, mastigando, conversando (exceto a gritaria das crianças), abrindo pacotes, a trilha sonora dos celulares (não tocando, porque o avião cai se acessar a internet) etc, e a turbina ensurdecedora, que pelo menos seria de se esperar que ensurdecesse essas coisas, deixa passar tudo. É só um ruído de fundo que parece vibrar no corpo inteiro, uma irritação holística, emoldurando a parte mais irritante do ônibus.

Sem contar que, se fosse um ônibus, quando ele está marcado pra sair, por exemplo, 21h43, basta estar ali na porta às 21h42, como é, aliás, com todos os compromissos humanos.

No avião, é necessário descobrir por conta própria que “hora x = vinte pra hora x”: se o avião sai, por exemplo, às 22h, o horário não é 22h mas sim vinte pras dez (só na gol desta vez, porque das outras não teve problema), número mágico que deve ter sido definido porque, sei lá, o 14 bis sobrevoou os céus de Paris por vinte minutos, ou em homenagem aos vinte mártires da aviação que deram suas vidas para salvar os passageiros do vigésimo vôo da historia.

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No avião também é necessário reconhecer e aceitar os prejuízos de não poder ser cliente gold, de ter uma passagem mais barata, de não poder pagar um extra para embarcar primeiro (mas todo mundo tem que estar lá, para testemunhar a entrada triunfal do gold - não porque os goldes sejam exibidos, e sim porque a empresa quer exibi-los aos tarifas econômicas, já que era só deixar os tarifa econômica chegar depois), e depois da entrada triunfal dos goldes, as baias são divididas em 1 (não entrou ninguém), 2 e os 3, 4 e 5 que não tenham mochila de rodinhas, baia 3, 4 e 5 (não são três baias, essa é a identificação dela) com rodinhas (mas a divisão entre os com e os sem rodinhas só se descobre pelos berros dos funcionários), e a última para as “preferências legais” (que é um jeito inovador de chamar o que no resto do mundo se chama preferencial, provavelmente para não melindrar os goldes, que também são preferenciais mas pagaram por essa honra e distinção).

Num ônibus ou num metrô entra todo mundo pelo mesmo lugar, independente de quanto tenha sido a passagem.

Só espero que pelo menos não caia, porque fora a expectativa (incerta) de que isso não aconteça (e o fato de ser mais rápido), todo o resto dentro de um avião é uma verdadeira droga.