08/07/2026


Então é assim que a vida faz
E sempre haverá um fim
Um pano rápido ou um plano
Longinquo do horizonte e os créditos

Os personagens se revelam
Atores no aplauso final
E para cada interpretação
O que lhe for proporcional

Fica muito bem em cinema
Romance de um romance ideal
Só vamos entao deixar combinado
Aqui há vida real

Não leve o personagem pra cama
Pode acabar sendo fatal
Então desmonta logo esta máscara
Voltamos a estaca zero,
Fica tudo igual
Normal


(Tudo igual1 - Lulu Santos)

Essa letra do Lulu Santos é sobre fingimentos no amor. Não necessariamente fingir que não se ama (mas também serve pra isso), porque pode ser fingir ser quem não se é para agradar, para manter - ou tentar manter - um relacionamento, e essas coisas.

Além do que o Lulu Santos queria dizer2 serve também para todo o tipo de degradação que se costuma considerar como o lado ruim do amor, como tratar o outro como submisso, como objeto, como válvula de escape dos problemas, porque nesses casos esse tipo de pessoa também está representando um papel que não é de verdade (forte, poderoso, dominador, mais importante, etc). E tanto o parágrafo acima como esse também valem para situações de amizade.

Mas parece que de uns tempos para cá isso foi importado pelos influencers do ódio de rede social para se esconderem atrás do fingimento barato de teatro para tentar vender seus preconceitos como “atuação” - o que continuaria a ser asqueroso e nocivo mesmo que fosse verdade, quer dizer, mesmo que fosse um teatro.

O ápice disso é o Trump, que faz a performance mais bem acabada do discurso de ódio, como um cocô bonito que continua sendo merda qualquer que seja o formato que assuma, e depois disso veio Zelensky (o palhaço líder que em vez de levar o personagem pra cama levou para as urnas, e só não virou o que prometia porque o Putin é pior ainda que ele, obrigando o ex-actor a virar, tanto quanto possível, um presidente de verdade para defender a Ucrânia), o Bolsonaro, que apesar de ser um político a vida inteira só ficou famoso como personagem de comédia do CQC, e então daí foi ladeira abaixo, pelo menos no Brasil, com gente saindo direto dos feeds de ódio das redes sociais pro Congresso e pros outros cargos eletivos que tem por aí.

Mas o que sustenta isso são os “personagens” como o reality show de mentirinha ou a xenofobia performática (que nesse caso é parente do racismo recreativo mas em vez de vender preconceito como diversão, parece estar sendo vendido também como estratégia de marketing pra chamar a atenção no youtube3), que só se revelam “personagens”, “teatros”, “representação” depois que a polícia bate na porta, dentro do mesmo espírito do “era só brincadeirinha” depois de uma declaração racista, misógina, ou qualquer outra coisa do tipo que se enquadre na Gaudium et spes 29, ao contrário de uma representação artística de verdade, que se apresenta como tal, e não como realidade (não que a representação artística não possa ser enquadrada por ser uma representação artística, mas embora a podridão seja a mesma, um artista preconceituoso e uma obra preconceituosa não são a mesma coisa que podridão disfarçada de arte para se justificar).?

Além da monetização do ódio que as big techs fazem, é claro.


1 Copiada do Vagalume

2 Não que eu saiba o que se passa, nem o que se passava na cabeça dele, mas considerando que ele é o último romântico, me parece uma interpretação justa.

3 Copiado do instagram da Revista Cenarium:

🚨 A Justiça de Pernambuco determinou a suspensão do perfil do influenciador Gabriel Silva no Instagram por entender que ele utilizava a rede social para disseminar discursos de ódio, xenofobia e discriminação contra nordestinos, pessoas em situação de pobreza e outros grupos vulneráveis. A decisão liminar foi assinada em 1º de junho pelo juiz José Alberto de Barros Freitas Filho, da 26ª Vara Cível da Capital, em ação civil pública proposta pela Defensoria Pública de Pernambuco.

Após a divulgação da decisão, Gabriel Silva publicou um vídeo afirmando que esperava a restrição do perfil. Na gravação, ele criticou a atuação da Justiça, disse que “60% a 70%” do conteúdo que produz corresponde a um “personagem” criado para viralizar e sustentou que a maior parte de seus vídeos tem caráter humorístico. O influenciador também afirmou que não faria um vídeo para “pedir desculpas” ou “justificar o injustificável” e declarou que já havia recebido outros processos por declarações anteriores.

Ao fundamentar a liminar, o magistrado afirmou que a liberdade de expressão não possui caráter absoluto e não pode servir de escudo para discursos de ódio. A decisão cita publicações em que Gabriel afirma que “todo nordestino tinha que ter visto para sair do Nordeste”, diz que nordestinos “nascem burros” e classifica o Nordeste como “o esgoto do Brasil”. Para o juiz, as manifestações revelam uma conduta reiterada e justificam a suspensão integral do perfil, uma vez que a remoção de publicações específicas seria insuficiente para impedir novas violações.

Legenda e Produção de Conteúdo: Bianca Diniz
Design: Felipe Soares
Social Media: Pedro Rocha
Imagens: Reprodução/Redes Sociais