02/07/2026

O problema da Igreja Católica com a Teologia da Libertação, ou melhor, o problema na Igreja com a TdL nunca foi com a TdL e nem mesmo com o marxismo em si, que “tem elementos válidos e aproveitáveis1”, e inclusive “por suas origens judaico-messiânicas conserva ainda elementos cristãos2”, e sim que quando se mistura com (não quando dialoga com, e sim quando se mistura, se confundindo com) teologia cristã, “mantém a esperança, mas o posto ocupado por Deus é substituído pelo partido e, portanto, pelo totalitarismo de um culto ateístico, que está disposto a sacrificar toda a humanidade a seu falso deus”3, porque a teologia precisa fazer o que quer que faça a partir de uma perspectiva de Deus, ou mais exatamente, a partir da Revelação que Jesus nos traz.

A reação às consequências do, digamos assim, “excesso de marxismo” na TdL (que fora isso sempre foi um patrimônio da Igreja - dá pra ver isso nas duas instruções sobre a teologia da libertação e em vários textos posteriores, não vou prcurar agora) em detrimento da Revelação foi rápida (“rápida” em termos de Igreja Católica: do livro Teologia da Libertação: Perspectivas ao pedido de dispensa do sacerdócio de Leonardo Boff foram mais ou menos 30 anos) e meio cruel (Boff foi praticamente cozinhado em fogo lento pela extinta Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo próprio Ratzinger, por sinal, tanto é que ele pediu a dispensa e, até onde eu sei, até hoje não deram).

Já contra a FSSPX que é mais ou menos da mesma época, a reação foi muito mais lenta e branda, e depois de idas e vindas, excomunhões e recomunhões, só agora eles decidiram se firmarem no cisma (embora apontem o dedo do cisma pros outros) porque, até então eram um problema interno da Igreja, e não uma “ameaça” externa como a tentativa de fusão do marxismo com a TdL. Não que eu lamente isso, mas com o pessoal da teologia da libertação poderia ter sido assim também.

Mas a questão é Ratzinger disse mais uma coisa sobre o avanço do pensamento marxista dentro da TdL:

Não há duvida de que é preciso levar em conta que um erro não pode existir sem conter simultaneamente um núcleo de verdade, Com efeito, um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núcelo de verdade nele contida4.

Não vou dizer “que isso sirva para a Igreja apredner” - mas, desculpe, apesar disso eu pensei. O que eu vou dizer é que pelo menos sirva para os cristãos não se encantarem com coisas tão com cara de cristianismo como conservadorismo e tradicionalismo, porque “se um erro é tanto mais perigoso quanto maior for a proporção do núclo de verdade nele”, muito mais perigoso que o canto de sereia do pensamento marxista, que afinal de contas nunca se apresentou como cristão, ao contrário do conservadorismo e o tradicionalismo, que se apresentam sucessivamente como cristianismo, cristianismo de verdade e cristianismo de verdade perseguido - e se deixar daqui a pouco também vão fazer com que “o posto ocupado por Deus seja substituído” por esses dois - valores? posicionamentos políticos? - enfim, por essa dupla. O marxismo misturado na teologia é mais fácil de se distinguir (pelo menos depois dos processos contra o pessoal da TdL), mas coisas tiradas de dentro da doutrina cristã (não o conservadorismo, que não faz parte da doutrina, mas pelo menos a tradição faz parte) e sobrevalorizadas aritificialmente são menos identificáveis e, pela lógica da frase de Ratzinger, mais perigosas (mais ou menos como na história de que flatus e perfidus eram deuses ou gregos ou romanos do peido barulhento mas inodoro e do peido silencioso mas fedorento - não sei se é isso mesmo, talvez tenham inventado esta história, mas pelo menos serve para chamar coisas como a FSSPX de pérfidas).

A imagem foi copiada do Vatican News.

1 Ratzinger, J. (1984). Instrução sobre a Teologia da Libertação: (apresentação). Revista Eclesiástica Brasileira, 44(176), 691–694. Recuperado de https://revistaeclesiasticabrasileira.itf.edu.br/reb/article/view/3446. “Elementos válidos e aproveitáveis” apesar de ter se desenvolvido em oposição ao cristianisno, à sede de Deus e à sua esperança, conforme ele diz logo antes da parte citada.

2 Un giro doctrinal en la vida del Papa Ratzinger, p. 230. No irignal em espanhol, “por sus orígenes judaico-mesiánicos conserva todavía elementos cristianos”. É uma cópia de 16 páginas de uma autobiografia do finado papa. A página 230 é da revista, e não da autobiografia (deveria ter um “apud” aí mas como é um texto pro meu blog e não para faculdade, não quis me dar ao trabalho de citar conforme a ABNT - mas dá pra ver de onde veio lá no texto, que é um pdf).

3 Idem ao 2. No original em espanhol o texto é “Queda la esperanza, pero el puesto de Dios lo sustituye el partido y, por tanto, el totalitarismo de un culto ateístico, que está dispuesto a sacrificar todo humanidad a su falso Dios.”

4 Ratzinger, J. (1984). Explico-vos a Teologia da Libertação. Revista Eclesiástica Brasileira, 44(173), 108–115. Recuperado de https://revistaeclesiasticabrasileira.emnuvens.com.br/reb/article/view/3521, p. 109 (mas é a primeira do PDF).