A maldita polarização
28/06/2026
Eu fico angustiado com as apresentações exemplares que eu leio sobre is eleitores independentes despolarizados. Apresentações exemplares no sentido de serem apresentados como exemplos, tais quais os santos da Igreja Católica, exemplos a serem colocados em prática na fé em Deus, e não no sentido de apresentações bem feitas, tão bem feitas a ponto de serem apresentações exemplares, até porque são apresentações mal feitas.
Deus é imparcial, mas dele pra baixo todo mundo tem lado, e eu sempre vou desconfiar desse tipo de apresentação exemplar de independência que pra mim é individualismo sabor independência, sem nem ter os avisos de conservantes e aromatizantes que indicam se tratar de um ultraprocessado barato.
“Não, porque quem vai decidir a eleição é quem não é nem antibolsonarista nem antipetista”, “o eleitor independente não compra ideologias, avalia os resultados”, como se tirar os direitos trabalhistas para baratear o “custo do empregado” não fosse muito mais fácil do que convencer os donos de empresas que o lucro… aliás, os donos de empresas nem lucram, qualquer “empreendedor” trabalha, no fim das contas, para os grandes acionistas, desses que tem o orçamento de cidades, de estados, de países em ações (não os que “investem” para melhorar a apostadoria, que deve ser o prioritariamente direito de quem trabalha e não de quem investe no mercado). Ninguém conta a proporção de quantos chutes a gol por bola na rede para celebrar o ataque contra os nossos direitos, nem quantas defesas espetaculares foram feitas depois que só uma bola entrou: o atacante só precisa acertar uma, e o goleiro, defender todas (e mesmo assim nenhuma defesa vai contar pontos na tabela).
Talvez seja porque perto de onde eu moro tem uma rua Patativa que eu sempre fique lembrando do Viveiro de Pássaros (link pro youtube), da coleção Disquinho, que era um disco com uma música de mais ou menos dez minutos com metade de cada lado. Eu não lembro se o gato ou o dono do gato que se chamam Pinduca ou Manduca, então vou tratar o gato como Pinduca e o dono do gato como Manduca, e tem mais um personagem aí no meio mas a história é que o Manduca ou não sei quem arranjou um pica-pau pra colocar no viveiro onde “tem patativa, tem sabiá, tem tico-tico, tem candará, tem pintassilgo, tem curió, tem pinta-roxo e tem xororó, tem bicudo e tem castelo, quero-quero e colibri, cardeal e periquito, maricota e araxari”. O pica-pau chegou meio que dando coices (metafóricos) em todo mundo, mas depois se integrou no grupo, e começou a liderar uma revolução de pássaros para serem libertados do viveiro (com direito a um hino, “Senhor Deus dos passarinhos, vem ouvir essa oração, dize a todas que quem tem bom coração, não destrói os nossos ninhos nem nos prende na prisão”, que irritou o Manduca e aí ele amarrou o bico deles, então eles cantam a música em murmúrios, já que foram calados à força, muito emocionante), que contou com o apoio inesperado do Pinduca, o gato, que aceitou a ideia de que só poderia ter a chance de caçar os passarinhos se eles estivessem livres, e dentro do viveiro nunca ia alcançá-los.
Bom, tem que ver o lado do Manduca e analisar porque, olha aí, os passarinhos presos, sem voar, estavam protegidos do Pinduca - a mesma ideia de quem acha que dá pra pesar o bolsonarismo golpista que está oferecendo a equipe de transição para o governo dos EUA com a mesma régua do PT que, bem, não é nenhum santo, tanto é que se vende como projeto político que escolhe o lado dos trabalhadores e não como o braço político de um projeto messiânico enviado por Deus para instaurar o seu reino na terra (até porque, ao contrário do que o bolonarismo prega, o reino de Deus vai se consolidando pela ação de Jesus Cristo que leva a ter fé nele, e não pelo voto nem de quem tem nem de quem não tem fé em Jesus). Tem doido também na esquerda (sempre tem o PCO para provar isso, e mesmo assim eles geram entretenimento - “quem bate cartão não vota em patrão” deveria ser eleito o bordão político do século, o que é provavelmente o único motivo que justifica eles receberem algum dinheiro público, caso recebam - e não tentativas de golpe, promessas de metralhar os inimigos nem trocadilhos grotescos sobre jornalistas querendo dar o furo para ele só porque são mulheres - apesar das indesculpáveis defesas do Neymar e, às vezes, até do Bolsonaro), mas a maioria não confunde escolher um lado com aceitar Deus no seu coração.
São essas duas diferenças gritantes que são apresentadas como dois lados opostos mas equivalentes: um projeto político de esquerda onde até tem quem aproveite o poder para roubar, mas que tem um projeto político para obter um poder político com fins políticos, tudo politizado sem ser messianizado, e não um projeto de poder onde Deus, pátria e família se confundem entre si e com a política, fazendo Deus virar política pública, a pátria virar religião, a família a dona do poder e no fim nem Deus, nem a pátria nem a família são contemplados com aquilo que lhes é de direito - enfim, quero dizer que o que eles fazem é dar a Deus o que é de César e a César o que é de Deus, e no fim tanto o que Deus recebe, que deveria ser de César, quanto o que César recebe, que deveria ser de Deus, era tudo falsificado de qualquer forma.
Por fim, isso deveria ter ficado encaixado em algum lugar acima mas só lembrei agora: em vez de eleitores “independentes” que não tem lado, deveriam pensar em pessoas que tem lado mas não perdem a autonomia por causa disso (porque aí sim, “terceirizar” a autonomia para o lado que é assumido acontece e isso deveria ser discutido). E demonizar a polarização é um sintoma de quem quer uma sociedade de ovelhas dóceis, o que é necessário em relação a Cristo, o Bom Pastos, mas o rebanho de Cristo é uma coisa, uma sociedade de ovelhas é outra bem diferente, é que nem querer gerar tensão sem um polo positivo e outro negativo (mas eles querem uma sociedade de fios neutros, quase sempre desenergizados), um espaço indiferenciado onde não existem em cima, embaixo, esquerda nem direita para poder se orientar, com astronautas de mármore que em vez de voltarem mais puros do céu, voltam mais neutros de lugar nenhum, já que todos os lugares são iguais.
O que não tem nada a ver com a história mas é digno de nota: a salmista na missa de hoje com a criança no ambão (acho que é assim que se chama a mesinha onde se lê as leituras na missa). É claro que se foi porque não tinha um pai decente para ficar com a criança é ruim, mas tirando essa possibilidade, achei o equivalente religioso da Manuela D’Ávila ou da ex-presidente (ou ex-deputada?) da Austrália (ou da Nova Zelândia?) amamentando a criança no parlamento. Nos dois lugares sobram adultos demais e crianças de menos.