25/06/2026

“Um dos elementos com base nos quais se pode diferenciar a espécie humana de outras é a racionalidade. A espécie humana, ao adquirir a consciência de si, desenvolve a inteligência e a capacidade de sobrevivência, construindo mecanismos que buscam vencer a morte. Porém, além do próprio ato de pensar sobre sua existência, o ser humano, em suas relações com o mundo que o rodeia, também experimenta emoções e sentimentos, como medo, raiva, alegria, esperança, segurança e humildade. A vida dos seres humanos está envolvida pelos afetos.”

“O pensador holandês Baruch de Espinosa, nascido no ano de 1632, pensa a vida afetiva não em termos de paixões, mas sim de afetos, valorizando as ações dos seres humanos em sua capacidade de afetar e serem afetados no cotidiano. Assim, em seu entendimento, é preciso conhecer os efeitos dos afetos entre nós – o que nos afeta e como somos afetados –, pois, dessa forma, saberemos como buscar a alegria e a potência de viver. O referido filósofo define as afecções da seguinte forma: “O corpo humano pode ser afetado de numerosas maneiras pelas quais a sua potência de agir é aumentada ou diminuída” (Espinosa, 1991, III, post. 1). Os afetos são sentimentos de aumento ou diminuição da nossa potência. Interagem com o corpo e, de acordo com a relação que mantêm com ele, podem aumentar nossa potência, por meio das grandes entidades afetivas – alegria e amor –, ou diminuí-la, com a tristeza e o ódio (Giacoia, 2018).”

“Nesse sentido, um corpo é tanto mais potente quanto mais é capaz de se relacionar de diversas maneiras e de perceber e conhecer as coisas ao seu redor. Isto é, o “corpo é tanto mais ativo quanto mais pode ser afetado distintamente, pois, na medida em que ele ‘se deixa afetar’, seu campo de conhecimento e, portanto, de ação e reação se expande, e com isso a possibilidade de padecer é menor” (Jesus, 2015, p. 172). De acordo com o pensamento espinosano, a potência do ser humano está na ação que produz para afetar e ser afetado de inúmeras maneiras.”

“O poder de afetar e ser afetado é um dos aspectos mais importantes da teoria do pensamento de Espinosa. A experiência dos afetos está no âmago da ficção de Clarice Lispector: por exemplo, quando uma de suas personagens (Ana, no conto “Amor”) adentra as profundezas do Jardim Botânico, vivencia os “instantes” do “trabalho secreto” que se descobrirá no jardim. Sendo assim, a literatura clariceana tenta desvendar a vida selvagem por meio da potência dos afetos, no impulso desejante de sentir a “própria coisa”.”

(Aléxia Fernanda Lourenço Lopes. Literatura dos afetos em Clarice Lispector,

e imagem é de Mariah Hewines na Unsplash)