16/06/2026

Pode ser que seja por causa do frio que algumas memórias de outros tempos friorentos estejam voltando. Mas, o que é estranho, não são memórias como eu estou acostumado, lembranças de um acontecimento com as respectivas pessoas e sentimentos envolvidos (além das imagens e histórias associadas), e sim sentimentos e emoções esquecidos, que talvez eu não tenha sentido mais, ou que talvez tenham reaparecido mas muito fracamente, e nem a hipótese de terem sido simplesmente reprimidos em outras ocasiões eu posso descartar.

Foto noturna de uma estrutura metálica pintada de amarelo vibrante serve como guarda-corpo em primeiro plano. Ela é composta por tubos cilíndricos, incluindo um corrimão superior horizontal e colunas verticais que se fixam a uma mureta de concreto escuro e úmido no chão. Entre esses tubos amarelos, estendem-se horizontalmente finos cabos de aço paralelos. Logo atrás do guarda-corpo amarelo, há um portão ou grade de metal azul-escuro com barras verticais. Atrás das frestas da estrutura azul, avista-se uma parede encardida clara onde se projetam as sobras do guarda-corpo e das barras do portão, deixando tudo meio quadriculado.

Foto de coisas do presente para ilustrar um texto sobre coisas do passado.

Mas agora estão aí. Eu associo isso com o frio porque assim como a lembrança de uma ou outra pessoa traz junto os sentimentos e eventos associados à lembrança dela, esse(s) sentimento(s) deste momento estão associados ao frio. E assim como a lembrança de alguém evoca a lembrança de eventos e emoções associados a ela, ou a lembrança de eventos evoca a lembrança de emoções e eventos (etc), esses sentimentos evocam pessoas e eventos (as lembranças dessas pessoas e desses eventos, quer dizer).

Não que essas pessoas e eventos tenham uma conotação de frio como a ideia de uma pessoa fria, um acontecimento que não causa mais impactos, inerte, nem de distância, nem nada disso. São sentimentos e emoções relacionados ao frio, que se intensificam, se destacam, retornam com todo seu ímpeto e toda a sua força sempre que as temperaturas caem, uma espécie de submundo das memórias inacessível via terapia, recontatos, encontro com fotos antigas, textos antigos, arquivos antigos, coisas que se repetem ou que são parecidas com outras que aconteceram no passado, ou outras coisas deste tipo.

Como se o frio descongelasse emoções identificáveis apenas quando está frio, ou reacendesse memórias guardadas não em imagens nem em histórias (que é o que eu estou acostumado), mas em sentimentos que só esse frio consegue trazer à tona.