Teologia de terracota
23/04/2026 - Teologia experimental
A imperfeição da realidade é melhor que a perfeiçã das ilusões
Quando Espinoza escreveu “por realidade e perfeição entendo a mesma coisa”1, isso era argumento para ele demonstrar a concepção panteísta que ele tinha de Deus (para ele, as coisas só eram reais na medida em que são manifestações de Deus e meio que eram Deus, quer fosse a beleza da luz decantada em cores num arco-íris, quer fosse a tristeza de um ovo podre cheirando mal, por exemplo). Para um panteísta assim, refletir sobre o arco-íris ou sobre o ovo podre já é fazer teologia.
Eu já li inúmeras definições do que é teologia e, para mim, a melhor definição foi a que um curso no site do Senado deu, mas sobre política: “grandes correntes de pensamento político não são objetos que possam ser estudados a partir de uma definição clara, unívoca, aceita por todos”2, quer dizer, o Islã e o hinduísmo provavelmente vão dar definições diferentes do que é teologia, diferentes tradições cristãs também, e mesmo dentro só de uma só podem ter várias, já que as inúmeras definições que eu li foram todas definições católicas.
O Magistério da Igreja não ajuda muito, basicamente explica que a teologia não pode abrir mão do que o próprio Magistério ensina, mas também não deve virar um papagaio de pirata do mesmo magistério (Teologia hoje: perspectivas, princípios e critérios, 37)3. Também tem a definição de Clodóvis Boff, que embora eu não tenha lido a Teoria do método teológico dele, é mais ou menos como a fé no modo ciência, que que tem como objeto a Revelação – uma das piores coisas na minha opinião é a teologia tentar validar-se como ciência, meio que pegando carona na credibilidade científica, porque por mais que a ciência seja verdade, nem tudo o que é verdade é científico4; ou a de Gustavo Gutiérrez, “La teología es una reflexión sobre la fe, y la fe lo que tiene que hacer es movilizar a las personas para cambiar.”5, mas por mais bonita que seja, parece mais a descrição de uma função do que uma definição6.
As melhores definições que eu encontrei até agora, que são da teóloga Larissa Menegatti e dos padres Pierre Bigo e Fernando Bastos de Ávila, vão citadas respectivamente aí embaixo num mesmo bloco:
[A teologia contemporânea parte] não apenas de uma visão do “alto”, mas também de um olhar encarnado na história, e que considera a própria realidade circundante. … não se trata dele [do teólogo] em si mesmo, mas em sua fé, ou seja, em sua relação com Deus.7 … a teologia, como disciplina, vale dizer como discurso educado da fé cristã, é uma só. A ótica que a especifica é contemplar tudo sob a luz da fé: primeiramente Deus e em seguida todas as coisas à luz de Deus. O objeto da teologia não é somente Deus enquanto acessível à razão ou enquanto revelado, mas, como já ensinava santo Tomás, também todos os seres enquanto podem ser vistos à luz de Deus. Pertence também à tarefa da teologia falar de política, de economia, de sociedade, enquanto não fale politicamente nem economicamente, porém teologicamente, isto é, à luz de Deus. Essa é a consideração específica do discurso teológico.8
Para mim são as melhores definições porque deixam claro que a teologia pressupõe a fé, mas pressupõe que está fé esteja inserida em uma realidade concreta, não em um céu platônico ideal – e por isso que me ocorreu a frase de Espinoza no começo, que realidade e perfeição9 sejam a mesma coisa. Não que, como eu já disse, seja por considerar que tudo é Deus e como Deus é perfeito, tudo é perfeito, mas porque a fé precisa ser vivenciada na realidade que existe, não em uma realidade passada, ou idealizada, ou projetada. E quando aparecem teologias que deturpam o cristianismo, é porque estão baseadas em uma realidade igualmente deturpada (ou porque já passou, ou é uma idealização ou uma projeção).
Acho que a melhor demonstração disso, dessa fé inserida na realidade10, é a explicação dessa mestra em arte sacra11 do porquê a imagem de Nossa Senhora Aparecida não é branca-que-perdeu-a-cor e sim negra:
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1 Ética demonstrada à maneira dos geômetras – mas não lembro em qual capítulo, proposição ou página está (só sei que está lá).
2 Do curso Doutrina Política: Novas Esquerdas – Turma 1 em saberes.senado.leg.br:
Grandes correntes de pensamento político não são objetos que possam ser estudados a partir de uma definição clara, unívoca, aceita por todos. Adversários e partidários têm interpretações diferentes de cada corrente, e mesmo no interior de cada uma delas encontramos divisões importantes. A seleção de assuntos e autores feita no curso é, portanto, necessariamente parcial.
3 “Hoje”, no caso do texto citado, é 2012, mas claro que o texto ainda vale hoje, quer dizer, 2026, nesse caso.
4 Quer dizer, “eles passarão, eu passarinho” ou “liberdade é uma palavra que não há quem explique e ninguém que não entenda” não são proposições científicas, por exemplo, mas também são verdade, mesmo sendo poesia, e acho que o mesmo vale para a teologia.
5 Outra que eu não sei de onde eu tirei, talvez daquele livro dele considerando o marco inicial da Teologia da Libertação (não lembro agora o nome), mas sei que a frase é dele.
6 Ou melhor, uma definição determinada por uma função; em todo caso, quem fala mal da fé cristã chamando-a de fantasia também está fazendo uma reflexão sobre a fé, e portanto também estaria fazendo teologia, por exemplo, se “reflexão sobre a fé” fosse uma definição.
7 Fundamentos científicos da fé cristã, p. 45.
8 Fé cristã e compromisso social, p. 139. A referência que eles fazem a s. Tomás de Aquino está na Summa Theologica P. I, Q1, A7 (não que eu tenha ido lá ver, eles é que colocaram no texto deles).
9 Não estou me referindo à perfeição à qual Jesus nos chama a alcançar, a perfeição da nossa filiação divina adotiva, que grosso modo é uma perfeição “em construção”, um trabalho de Deus em nós e nosso com Deus.
10 Que em todo caso é melhor porque existe, ao contrário da “perfeição” das ilusões, que não existe.
11 O vídeo original está no perfil do instagram de @anarocha.art.