23/04/2026 - Teologia experimental

Se Cristo for o foco central, a vida eterna será a consequência

Uma das ideias de Aristóteles que eu nunca entendi foi sobre as causas. Aparentemente existem quatro causas, ou quatro sentidos de causas, que podem ser o motivo pelo qual se faz alguma coisa, ou o objetivo, ou aquilo que desencadeia alguma coisa, e tem mais uma coisa aí que eu não me lembro. O que eu me lembro é que, pra mim, todas as quatro se dissolviam mais ou menos na mesma coisa (e acho que tem um quadrado lógico envolvido nessa história, mas posso estar confundindo uma outra coisa aí no meio). Desculpe não poder ajudar quanto a isso.

Eu sei, porém, que no meio disso surge a questão do telos, o objetivo. Eu lembro (muito vagamente) que (provavelmente) Espinoza cirticou (provavelmente) Descartes por colocar o telos, o objetivo, no lugar da causa …(momentos de reflexão ou de confusão mental)… aí no fim o problema é que Alguém criticou Outrem por tomar o efeito pela causa, mais ou menos como um sujeito atraído por uma garota que jura que ela está afim dele e conclui que é porque ela quer ele que ele quer ela.

Cadeados fechados em determinados locais públicos são símbolos de eternidade

Isso tudo porque o objetivo (o fim, o telos, a causa, seja lá o que for) do cristianismo não é alcançar a vida eterna. O objetivo do cristianismo é seguir Jesus. A vida eterna é só a consequência disso, mas não é a única e nem a principal¹. Mesmo a vida (a plenitude da vida, a vida plena, a vida verdadeira, etc) não é a consequência principal, porque a consequência principal é: Jesus (por isso que no começo eu encrenquei com a ideia de confundir causas e efeitos, mas é isso: Jesus é causa e consequência – alfa e ômega, se for pra escrever em termos bíblicos).

Mesmo quando são Paulo faz comparações entre o cristianismo e atletas correndo atrás da coroa de louros da vitória, é no sentido de responder à graça de Deus. Normalmente atletas disputam (não mais uma coroa de louros e sim) uma medalha de ouro por conquistarem o primeiro lugar, quer dizer, graças ao seu esforço eles conquistam esse prêmio; no caso do cristianismo, a “medalha de ouro” da vida eterma já foi conquistada por Cristo, e o esforço cristão só é possível por causa disso². Todo o esforço, disciplina e ascese cristãos não são a edificação de um propósito, a batalha por uma vitória, o esforço por uma recompensa e por aí vai, mas são o resultado de uma graça que já foi conquistada por Jesus³, e é só por isso que podemos ter uma feliz Páscoa.

(Foto de Aneta Pawlik na Unsplash)

¹ Tecnicamente não viveremos no tempo, que vai acabar, então não vai ser eterna. Mas não tem jeito melhor de colocar isso porque ninguém, ou pelo menos eu não tenho, a experiência da ausência de tempo (o que é diferente da experiência da falta de tempo, que infelizmente eu conheço bem).

² E só faz sentido por causa disso; por isso que Paulo diz que se Jesus não ressuscitou, nossa fé é inútil. E é claro que nossos esforços, disciplina, ascese, etc, são indispensáveis, mas o foco dos esforços, disciplinas, etc, é seguir Jesus (porque ele não vai seguir-se a si mesmo no nosso lugar). Parafraseando o evangelho de são Mateus 6,33: buscai primeiro seguir Jesus, e tudo o mais (incluindo a vida eterna) vos será acrescentado.

³ Estou pensando naquelas velas (ou como era antigamente, bancos de igreja e vitrais) com uma plaquinha de “em agradecimento por uma graça alcançada”.